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A todos, muito obrigado. Luiz Antônio - José Afonso Karibé


31 de jul. de 2011

O cão sem plumas

    João Cabral de Melo Neto


    I. Paisagem do Capibaribe

    A cidade é passada pelo rio
    como uma rua
    é passada por um cachorro;
    uma fruta
    por uma espada.

    O rio ora lembrava
    a língua mansa de um cão,
    ora o ventre triste de um cão,
    ora o outro rio
    de aquoso pano sujo
    dos olhos de um cão.

    Aquele rio
    era como um cão sem plumas.
    Nada sabia da chuva azul,
    da fonte cor-de-rosa,
    da água do copo de água,
    da água de cântaro,
    dos peixes de água,
    da brisa na água.

    Sabia dos caranguejos
    de lodo e ferrugem.
    Sabia da lama
    como de uma mucosa.
    Devia saber dos polvos.
    Sabia seguramente
    da mulher febril que habita as ostras.

    Aquele rio
    jamais se abre aos peixes,
    ao brilho,
    à inquietação de faca
    que há nos peixes.
    Jamais se abre em peixes.

    Abre-se em flores
    pobres e negras
    como negros.
    Abre-se numa flora
    suja e mais mendiga
    como são os mendigos negros.
    Abre-se em mangues
    de folhas duras e crespos
    como um negro.

    Liso como o ventre
    de uma cadela fecunda,
    o rio cresce
    sem nunca explodir.
    Tem, o rio,
    um parto fluente e invertebrado
    como o de uma cadela.

    E jamais o vi ferver
    (como ferve
    o pão que fermenta).
    Em silêncio,
    o rio carrega sua fecundidade pobre,
    grávido de terra negra.

    Em silêncio se dá:
    em capas de terra negra,
    em botinas ou luvas de terra negra
    para o pé ou a mão
    que mergulha.

    Como às vezes
    passa com os cães,
    parecia o rio estagnar-se.
    Suas águas fluíam então
    mais densas e mornas;
    fluíam com as ondas
    densas e mornas
    de uma cobra.

    Ele tinha algo, então,
    da estagnação de um louco.
    Algo da estagnação
    do hospital, da penitenciária, dos asilos,
    da vida suja e abafada
    (de roupa suja e abafada)
    por onde se veio arrastando.

    Algo da estagnação
    dos palácios cariados,
    comidos
    de mofo e erva-de-passarinho.
    Algo da estagnação
    das árvores obesas
    pingando os mil açúcares
    das salas de jantar pernambucanas,
    por onde se veio arrastando.

    (É nelas,
    mas de costas para o rio,
    que "as grandes famílias espirituais" da cidade
    chocam os ovos gordos
    de sua prosa.
    Na paz redonda das cozinhas,
    ei-las a revolver viciosamente
    seus caldeirões
    de preguiça viscosa).

    Seria a água daquele rio
    fruta de alguma árvore?
    Por que parecia aquela
    uma água madura?
    Por que sobre ela, sempre,
    como que iam pousar moscas?

    Aquele rio
    saltou alegre em alguma parte?
    Foi canção ou fonte
    Em alguma parte?
    Por que então seus olhos
    vinham pintados de azul
    nos mapas?


    II. Paisagem do Capibaribe

    Entre a paisagem
    o rio fluía
    como uma espada de líquido espesso.
    Como um cão
    humilde e espesso.

    Entre a paisagem
    (fluía)
    de homens plantados na lama;
    de casas de lama
    plantadas em ilhas
    coaguladas na lama;
    paisagem de anfíbios
    de lama e lama.

    Como o rio
    aqueles homens
    são como cães sem plumas
    (um cão sem plumas
    é mais
    que um cão saqueado;
    é mais
    que um cão assassinado.

    Um cão sem plumas
    é quando uma árvore sem voz.
    É quando de um pássaro
    suas raízes no ar.
    É quando a alguma coisa
    roem tão fundo
    até o que não tem).

    O rio sabia
    daqueles homens sem plumas.
    Sabia
    de suas barbas expostas,
    de seu doloroso cabelo
    de camarão e estopa.

    Ele sabia também
    dos grandes galpões da beira dos cais
    (onde tudo
    é uma imensa porta
    sem portas)
    escancarados
    aos horizontes que cheiram a gasolina.

    E sabia
    da magra cidade de rolha,
    onde homens ossudos,
    onde pontes, sobrados ossudos
    (vão todos
    vestidos de brim)
    secam
    até sua mais funda caliça.

    Mas ele conhecia melhor
    os homens sem pluma.
    Estes
    secam
    ainda mais além
    de sua caliça extrema;
    ainda mais além
    de sua palha;
    mais além
    da palha de seu chapéu;
    mais além
    até
    da camisa que não têm;
    muito mais além do nome
    mesmo escrito na folha
    do papel mais seco.

    Porque é na água do rio
    que eles se perdem
    (lentamente
    e sem dente).
    Ali se perdem
    (como uma agulha não se perde).
    Ali se perdem
    (como um relógio não se quebra).

    Ali se perdem
    como um espelho não se quebra.
    Ali se perdem
    como se perde a água derramada:
    sem o dente seco
    com que de repente
    num homem se rompe
    o fio de homem.

    Na água do rio,
    lentamente,
    se vão perdendo
    em lama; numa lama
    que pouco a pouco
    também não pode falar:
    que pouco a pouco
    ganha os gestos defuntos
    da lama;
    o sangue de goma,
    o olho paralítico
    da lama.

    Na paisagem do rio
    difícil é saber
    onde começa o rio;
    onde a lama
    começa do rio;
    onde a terra
    começa da lama;
    onde o homem,
    onde a pele
    começa da lama;
    onde começa o homem
    naquele homem.

    Difícil é saber
    se aquele homem
    já não está
    mais aquém do homem;
    mais aquém do homem
    ao menos capaz de roer
    os ossos do ofício;
    capaz de sangrar
    na praça;
    capaz de gritar
    se a moenda lhe mastiga o braço;
    capaz
    de ter a vida mastigada
    e não apenas
    dissolvida
    (naquela água macia
    que amolece seus ossos
    como amoleceu as pedras).


    III. Fábula do Capibaribe

    A cidade é fecundada
    por aquela espada
    que se derrama,
    por aquela
    úmida gengiva de espada.

    No extremo do rio
    o mar se estendia,
    como camisa ou lençol,
    sobre seus esqueletos
    de areia lavada.

    (Como o rio era um cachorro,
    o mar podia ser uma bandeira
    azul e branca
    desdobrada
    no extremo do curso
    — ou do mastro — do rio.

    Uma bandeira
    que tivesse dentes:
    que o mar está sempre
    com seus dentes e seu sabão
    roendo suas praias.

    Uma bandeira
    que tivesse dentes:
    como um poeta puro
    polindo esqueletos,
    como um roedor puro,
    um polícia puro
    elaborando esqueletos,
    o mar,
    com afã,
    está sempre outra vez lavando
    seu puro esqueleto de areia.

    O mar e seu incenso,
    o mar e seus ácidos,
    o mar e a boca de seus ácidos,
    o mar e seu estômago
    que come e se come,
    o mar e sua carne
    vidrada, de estátua,
    seu silêncio, alcançado
    à custa de sempre dizer
    a mesma coisa,
    o mar e seu tão puro
    professor de geometria).

    O rio teme aquele mar
    como um cachorro
    teme uma porta entretanto aberta,
    como um mendigo,
    a igreja aparentemente aberta.

    Primeiro,
    o mar devolve o rio.
    Fecha o mar ao rio
    seus brancos lençóis.
    O mar se fecha
    a tudo o que no rio
    são flores de terra,
    imagem de cão ou mendigo.

    Depois,
    o mar invade o rio.
    Quer
    o mar
    destruir no rio
    suas flores de terra inchada,
    tudo o que nessa terra
    pode crescer e explodir,
    como uma ilha,
    uma fruta.

    Mas antes de ir ao mar
    o rio se detém
    em mangues de água parada.
    Junta-se o rio
    a outros rios
    numa laguna, em pântanos
    onde, fria, a vida ferve.

    Junta-se o rio
    a outros rios.
    Juntos,
    todos os rios
    preparam sua luta
    de água parada,
    sua luta
    de fruta parada.

    (Como o rio era um cachorro,
    como o mar era uma bandeira,
    aqueles mangues
    são uma enorme fruta:

    A mesma máquina
    paciente e útil
    de uma fruta;
    a mesma força
    invencível e anônima
    de uma fruta
    — trabalhando ainda seu açúcar
    depois de cortada —.

    Como gota a gota
    até o açúcar,
    gota a gota
    até as coroas de terra;
    como gota a gota
    até uma nova planta,
    gota a gota
    até as ilhas súbitas
    aflorando alegres).


    IV. Discurso do Capibaribe

    Aquele rio
    está na memória
    como um cão vivo
    dentro de uma sala.
    Como um cão vivo
    dentro de um bolso.
    Como um cão vivo
    debaixo dos lençóis,
    debaixo da camisa,
    da pele.

    Um cão, porque vive,
    é agudo.
    O que vive
    não entorpece.
    O que vive fere.
    O homem,
    porque vive,
    choca com o que vive.
    Viver
    é ir entre o que vive.

    O que vive
    incomoda de vida
    o silêncio, o sono, o corpo
    que sonhou cortar-se
    roupas de nuvens.
    O que vive choca,
    tem dentes, arestas, é espesso.
    O que vive é espesso
    como um cão, um homem,
    como aquele rio.

    Como todo o real
    é espesso.
    Aquele rio
    é espesso e real.
    Como uma maçã
    é espessa.
    Como um cachorro
    é mais espesso do que uma maçã.
    Como é mais espesso
    o sangue do cachorro
    do que o próprio cachorro.
    Como é mais espesso
    um homem
    do que o sangue de um cachorro.
    Como é muito mais espesso
    o sangue de um homem
    do que o sonho de um homem.

    Espesso
    como uma maçã é espessa.
    Como uma maçã
    é muito mais espessa
    se um homem a come
    do que se um homem a vê.
    Como é ainda mais espessa
    se a fome a come.
    Como é ainda muito mais espessa
    se não a pode comer
    a fome que a vê.

    Aquele rio
    é espesso
    como o real mais espesso.
    Espesso
    por sua paisagem espessa,
    onde a fome
    estende seus batalhões de secretas
    e íntimas formigas.

    E espesso
    por sua fábula espessa;
    pelo fluir
    de suas geléias de terra;
    ao parir
    suas ilhas negras de terra.

    Porque é muito mais espessa
    a vida que se desdobra
    em mais vida,
    como uma fruta
    é mais espessa
    que sua flor;
    como a árvore
    é mais espessa
    que sua semente;
    como a flor
    é mais espessa
    que sua árvore,
    etc. etc.

    Espesso,
    porque é mais espessa
    a vida que se luta
    cada dia,
    o dia que se adquire
    cada dia
    (como uma ave
    que vai cada segundo
    conquistando seu vôo).


Texto extraído do livro:
        João Cabral de Melo Neto
        "O Cão sem Plumas"
        In Poesias Completas (1940-1965)
        José Olympio, 3a. ed., 1979

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