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A todos, muito obrigado. Luiz Antônio - José Afonso Karibé


8 de jun. de 2011

Vou-me embora pro passado

Jessier Quirino

"No rastro da Bandeira de Manuel"


        Vou-me embora pro passado
        Lá sou amigo do rei
        Lá tem coisas "daqui, ó!"
        Roy Rogers, Buc Jones
        Rock Lane, Dóris Day
        Vou-me embora pro passado.

        Vou-me embora pro passado
        Porque lá, é outro astral
        Lá tem carros Vemaguet
        Jeep Willes, Maverick
        Tem Gordine, tem Buick
        Tem Candango e tem Rural.

        Lá dançarei Twist
        Hully-Gully, Iê-iê-iê
        Lá é uma brasa mora!
        Só você vendo pra crê
        Assistirei Rim Tim Tim
        Ou mesmo Jinne é um Gênio
        Vestirei calças de Nycron
        Faroeste ou Durabem
        Tecidos sanforizados
        Tergal, Percal e Banlon
        Verei lances de anágua
        Combinação, califon
        Escutarei Al Di Lá
        Dominiqui Niqui Niqui
        Me fartarei de Grapette
        Na farra dos piqueniques
        Vou-me embora pro passado.

        No passado tem Jerônimo
        Aquele Herói do Sertão
        Tem Coronel Ludugero
        Com Otrope em discussão
        Tem passeio de Lambreta
        De Vespa, de Berlineta
        Marinete e Lotação.

        Quando toca Pata Pata
        Cantam a versão musical
        "Tá Com a Pulga na Cueca"
        E dançam a música sapeca
        Ô Papa Hum Mau Mau
        Tem a turma prafrentex
        Cantando Banho de Lua
        Tem bundeira e piniqueira
        Dando sopa pela rua
        Vou-me embora pro passado.

        Vou-me embora pro passado
        Que o passado é bom demais!
        Lá tem meninas "quebrando"
        Ao cruzar com um rapaz
        Elas cheiram a Pó de Arroz
        Da Cachemere Bouquet
        Coty ou Royal Briar
        Colocam Rouge e Laquê
        English Lavanda Atkinsons
        Ou Helena Rubinstein
        Saem de saia plissada
        Ou de vestido Tubinho
        Com jeitinho encabulado
        Flertando bem de fininho.

        E lá no cinema Rex
        Se vê broto a namorar
        De mão dada com o guri
        Com vestido de organdi
        Com gola de tafetá.

        Os homens lá do passado
        Só andam tudo tinindo
        De linho Diagonal
        Camisas Lunfor, a tal
        Sapato Clark de cromo
        Ou Passo-Doble esportivo
        Ou Fox do bico fino
        De camisas Volta ao Mundo
        Caneta Shafers no bolso
        Ou Parker 51
        Só cheirando a Áqua Velva
        A sabonete Gessy
        Ou Lifebouy, Eucalol
        E junto com o espelhinho
        Pente Pantera ou Flamengo
        E uma trunfinha no quengo
        Cintilante como o sol.

        Vou-me embora pro passado
        Lá tem tudo que há de bom!
        Os mais velhos inda usam
        Sapatos branco e marrom
        E chapéu de aba larga
        Ramenzone ou Cury Luxo
        Ouvindo Besame Mucho
        Solfejando a meio tom.

        No passado é outra história!
        Outra civilização...
        Tem Alvarenga e Ranchinho
        Tem Jararaca e Ratinho
        Aprontando a gozação
        Tem assustado à Vermuth
        Ao som de Valdir Calmon
        Tem Long-Play da Mocambo
        Mas Rosenblit é o bom
        Tem Albertinho Limonta
        Tem também Mamãe Dolores
        Marcelino Pão e Vinho
        Tem Bat Masterson, tem Lesse
        Túnel do Tempo, tem Zorro
        Não se vê tantos horrores.

        Lá no passado tem corso
        Lança perfume Rodouro
        Geladeira Kelvinator
        Tem rádio com olho mágico
        ABC a voz de ouro
        Se ouve Carlos Galhardo
        Em Audições Musicais
        Piano ao cair da tarde
        Cancioneiro de Sucesso
        Tem também Repórter Esso
        Com notícias atuais.

        Tem petisqueiro e bufê
        Junto à mesa de jantar
        Tem bisqüit e bibelô
        Tem louça de toda cor
        Bule de ágata, alguidar
        Se brinca de cabra cega
        De drama, de garrafão
        Camoniboi, balinheira
        De rolimã na ladeira
        De rasteira e de pinhão.

        Lá, também tem radiola
        De madeira e baquelita
        Lá se faz caligrafia
        Pra modelar a escrita
        Se estuda a tabuada
        De Teobaldo Miranda
        Ou na Cartilha do Povo
        Lendo Vovô Viu o Ovo
        E a palmatória é quem manda.

        Tem na revista O Cruzeiro
        A beleza feminina
        Tem misse botando banca
        Com seu maiô de elanca
        O famoso Catalina
        Tem cigarros Yolanda
        Continental e Astória
        Tem o Conga Sete Vidas
        Tem brilhantina Glostora
        Escovas Tek, Frisante
        Relógio Eterna Matic
        Com 24 rubis
        Pontual a toda hora.

        Se ouve página sonora
        Na voz de Ângela Maria
        "— Será que sou feia?
        — Não é não senhor!
        — Então eu sou linda?
        — Você é um amor!..."

        Quando não querem a paquera
        Mulheres falam: "Passando,
        Que é pra não enganchar!"
        "Achou ruim dê um jeitim!"
        "Pise na flor e amasse!"
        E AI e POFE! e quizila
        Mas o homem não cochila
        Passa o pano com o olhar
        Se ela toma Postafen
        Que é pra bunda aumentar
        Ele empina o polegar
        Faz sinal de "tudo X"
        E sai dizendo "Ô Maré!
        Todo boy, mancando o pé
        Insistindo em conquistar.

        No passado tem remédio
        Pra quando se precisar
        Lá tem Doutor de família
        Que tem prazer de curar
        Lá tem Água Rubinat
        Mel Poejo e Asmapan
        Bromil e Capivarol
        Arnica, Phimatosan
        Regulador Xavier
        Tem Saúde da Mulher
        Tem Aguardente Alemã
        Tem também Capiloton
        Pentid e Terebentina
        Xarope de Limão Brabo
        Pílulas de Vida do Dr. Ross
        Tem também aqui pra nós
        Uma tal Robusterina
        A saúde feminina.

        Vou-me embora pro passado
        Pra não viver sufocado
        Pra não morrer poluído
        Pra não morar enjaulado
        Lá não se vê violência
        Nem droga nem tanto mau
        Não se vê tanto barulho
        Nem asfalto nem entulho
        No passado é outro astral
        Se eu tiver qualquer saudade
        Escreverei pro presente
        E quando eu estiver cansado
        Da jornada, do batente
        Terei uma cama Patente
        Daquelas do selo azul
        Num quarto calmo e seguro
        Onde ali descansarei
        Lá sou amigo do rei
        Lá, tem muito mais futuro
        Vou-me embora pro passado

(N.A. Poema inspirado na leitura do livro Memorial de Marco Polo Guimarães, Edições Bagaço; em conversa antiga; e em outros poemas meus.)
O poema acima consta do livro "Prosa Morena", Editora Bagaço - Recife, 2001.

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